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«In memoriam» de José Estêvão dos Santos Jorge

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JOSÉ ESTÊVÃO (1923-2009)*

“Para mim, jornalistas eram
o Norberto Lopes, o Mário Neves, um Carlos Ferrão…”

Por Adelino Gomes

Começou aos 16 anos. Quase sete décadas passadas, José Estêvão dos Santos Jorge, sócio número 1 do Sindicato dos Jornalistas, ainda não se considerava um jornalista, mas um mero profissional de imprensa. Testemunho de um tempo em que se narravam os factos por ordem cronológica, havia jornalistas sem a 4ª classe, e a maior parte se repartia por dois e três empregos. Nem sempre ligados ao jornalismo. E nem sempre com ele compatíveis.

P – Entrou na profissão aos 16 anos. Como foi isso possível?!…

R – É muito simples. O meu pai [Artur Santos Jorge] era jornalista. Nós éramos quatro filhos. Fiz a instrução primária na escola da Câmara e depois fui para uma secção mista do Liceu Camões (ficava onde está hoje o Hospital de Santa Maria). Entrei com a promessa de conseguir as notas necessárias para ter isenção de propinas. Como não tive, o meu pai (que era só repórter no Diário de Lisboa, ganhava uma miséria) viu-se obrigado a enviar-me para a Escola Comercial Rodrigues Sampaio, onde fiz o Curso Complementar do Comércio, que dava equivalência ao 5º ano do Liceu. O curso era bom, tínhamos alguns professores muito bons — gente que ia lá dar aulas para ganhar mais uns dinheirinhos, porque os ordenados eram muito baixos. No último ano, ­tive um problema: chamaram-me porque eu não tinha ido à Milícia e era obrigatório. Meu pai era republicano, o irmão, meu tio, era maçónico, do reviralho, e eu tinha começado a sentir da mesma maneira. Tentei escapar, mas não consegui.

P — Entrou no jornalismo de que forma?

R — Depois das aulas, que eram no Poço Novo, ao fundo da Calçada do Combro, ia visitar o meu pai, à Rua Luz Soriano.

P — Onde se situava o Diário de Lisboa?

R — Sim, tinha começado poucos anos antes [em 1921]. Era dirigido pelo dr. Joaquim Manso, com o Norberto Lopes a chefe de redacção.

P — Porquê essa visita ao seu pai?

R — Ia pedir bilhetes para o cinema. Pagava-se um escudo, julgo. Levava sempre um amigo comigo, porque eram dois bilhetes [a que os jornalistas tinham direito]. Um dia o dr. Tavares da Silva, por quem vim a ter uma estima muito grande – foi depois o primeiro seleccionador nacional de futebol a vencer a Espanha, morreu muito cedo – perguntou de brincadeira: “Quanto é que o teu pai te dá por semana?” (Coitado, dava-me o dinheiro para o eléctrico e mais nada)  “Queres ganhar uns tostõezinhos ao fim-de-semana?”. Claro que queria. “Então passa por cá e procura o senhor [já não me lembro do nome] da agenda”. Era quem distribuía os serviços: natação, vela, hóquei em campo. Só uma vez fiz futebol. Um colaborador não apareceu e mandaram-me fazer o relato. Vi-me aflito para relatar o desafio.

P — Aflito, porquê?

R — Não era como agora. Tinha que se ir a correr para o telefone, dar uma parte do jogo e depois ir a correr outra vez para o campo. Foi assim que comecei a ganhar os meus tostõezinhos.

P – Como repórter desportivo ou como informador?

R – Era só colaborador. Coisinhas assim, aos sábados e domingos. Pagavam o eléctrico, os telefones. Eram 15, 20 escudos, que na altura já representavam alguma coisa. Por noticiazinhas telefonadas. Não escrevia em definitivo. Tive entretanto uma série de doenças graves (cheguei a estar à beira de ir desta para melhor). Mesmo assim, ainda fui aprovado para a tropa (sargento em Tavira), mas libertaram-me antes da instrução. Como o meu pai era amigo do Cândido de Oliveira, com quem discutia política numa farmácia do Bairro Alto, este disse-lhe um dia para eu passar por A Bola, que estava no início [1945]. Assim fiz. Uns tempos antes, em 1943, apareceu-me a hipótese de fazer a “Informação da Arcada”.

P — O que era isso?

R — Naquele tempo as notícias oficiais chegavam através do Secretariado Nacional da Propaganda. Os jornais ficaram danados. E então inventaram esse sistema: um Gabinete de Imprensa (manteve-se até depois do 25 de Abril) no Ministério do Interior, onde havia um chefe. No meu tempo era o Júlio de Almeida, redactor no Diário de Notícias e alto funcionário público. Acumulava, como quase toda a gente. Coligia-se lá a informação de todos os ministérios e mandava-se para os jornais. Estes pagavam uma avençazinha. Era preciso uma certa habilidade para a gente se acercar dos funcionários — não falávamos nem com os ministros nem com os secretários de Estado. No Diário de Lisboa esse serviço até chegou a ser feito, no princípio, pelo dr. Mário Neves. Havia um rapazinho da Casa da Imprensa ou do Sindicato, não me lembro ao certo, que ia lá buscar as cópias dos textos e distribuía-as pelos jornais, ganhando também uns tostõezinhos. Morreu um colega que fazia a “Informação da Arcada” para o Diário de Lisboa e o dr. Norberto Lopes perguntou ao meu pai se eu não queria substituí-lo. Na altura ninguém queria fazer uma coisa daquelas: tinha que se dar a volta toda pelos ministérios, Presidência da República e Presidência do Conselho, logo de manhã. Os ministérios estavam quase todos no Terreiro do Paço. Só o da Educação é que estava no Torel. Aos outros dois, íamos de eléctrico. Fui ganhar uns 600 escudos (o que eu substituí ganhava mil!…). Quando havia qualquer coisa de especial, o dr. Norberto Lopes mandava-me telefonar para certas pessoas importantes lá dos ministérios, que ele tratava por tu — eram todos lá de cima [de Trás-os-Montes]. Tive uma sorte muito grande porque entretanto tinha surgido o Diário Popular [1942] para onde trabalhava o Armando de Almeida, também funcionário público e que ajudava o pai, Júlio de Almeida, no serviço do Gabinete de Imprensa. Aquilo era uma dinastia: o avô e o pai também tinham sido jornalistas. O Júlio de Almeida foi um camarada de profissão como hoje já não se encontra.

P — Teve uma oportunidade no jornal A Bola e foi trocá-la pelo Gabinete de Imprensa?! Não gostava do Desporto?

R — Gostava. Mas o Desporto não levava ao jornalismo. Não eram sindicalizados. Mais tarde, quando consegui sindicalizar-me, nós éramos ao todo 350, contando com os mortos (a lista não estava actualizada). Só entravam lá os repórteres e os redactores de jornais diários. Os outros não tinham carteira de jornalista.

P –Como é que vocês, os candidatos, eram tratados nas redacções?

R — Fui muito feliz, porque quando entrei no Diário de Lisboa, sentia-me uma pessoa a quem o céu se abrira. Era uma redacção espantosa: o Ribeiro dos Santos (mais tarde chefe de redacção e depois do 25 de Abril director do Diário de Notícias); a Manuela  de Azevedo (a única mulher, uns grandes “tomates”); o Rogério Pérez, El Terrible, engraçadíssimo, sabia imenso de tauromaquia; o Artur Portela, pai, tinha uma memória extraordinária e escrevia maravilhosamente bem; o Félix Correia, um tipo encantador, o único monárquico da redacção e até germanófilo, mas não nazi, o problema era que bebia muito — ele, a mulher, os filhos, foram-se todos embora num instantinho. A única coisa que me chateava era ter que atender as pessoas que iam lá pedir. Quase todos os jornais davam alguma coisa, e eu no Diário de Lisboa era o encarregado disso.

P — Que tipo de pessoas ia lá pedir?

R — Olhe, até mulheres de jornalistas. Algumas debatiam-se com a miséria total. Tinham que alimentar-se e aos filhos e os maridos estavam no Aljube, no Tarrafal ou tinham morrido. Toda a gente se condoía. Mesmo no jornal A Voz (monárquico, católico, situacionista, onde eu entrei a seguir) davam dinheiro sabendo que os maridos delas, nalguns casos, estavam presos por serem da oposição.

P — Como é que decidia a quantia a dar?

R — Ia à Tesouraria e eles lá tinham 50 ou 100 escudos para dar, nessas ocasiões.

P — Quando é que passa a ser jornalista?

R — Aos 22 anos, quando, enquanto “informador da Arcada”, para o Lisboa, aceitei ser, cumulativamente, colaborador efectivo do Jornal do Comércio. Foi aqui que fiz o estágio obrigatório para ter a “carteira”, ou seja, o título profissional passado pelo Sindicato Nacional dos Jornalistas. É curioso assinalar que nas amplas instalações deste extinto jornal diário nasceram e morreram muitas publicações, entre as quais alguns jornais em que trabalhei (contavam sempre comigo porque estava sempre disponível!), como o vespertino Vitória, o matutino Diário Nacional e o primeiro diário desportivo português o Baliza. Depois do estágio no Jornal do Comércio passei para a A Voz, onde entrei já como repórter.

P — No Lisboa nunca tinha chegado a fazer nenhuma reportagem?

R — Tinha. Uma vez acompanhei um director-geral a uma inauguração de uma cantina. Até comprei uma fotografia no local. Nessa altura havia os carros que distribuíam os jornais, e nós aproveitávamos. Já antes, em A Bola, tinha ido a Leiria fazer uma entrevista ao advogado Vasco da Gama Fernandes, num automóvel desses que iam levar jornais ao Norte. O Lisboa até me aumentou o ordenado (de 600 para 700 escudos) e fiquei a ser pessoa amiga e de confiança no Ministério da Educação. Marquei um ponto.

P —Mas entretanto foi para A Voz.

R — Porque só ganhava aquilo. Assim fiquei a ganhar também de A Voz. Esse jornal era uma escola. As Novidades e O Jornal do Comércio e das Colónias também.

P — Eu pensava que escola de jornalismo era mais O Século.

R — Não se esqueça de que O Século tinha 20, 30 jornalistas. Mesmo no Lisboa ou no Popular, cada um tinha a sua secção. A Voz tinha 6 ou 7, apenas. Tínhamos que fazer tudo.

P — Disse-me que era do reviralho. Como é que o aceitaram nesse jornal, que entretanto até tinha sido comprado pela União Nacional?

R — Eu era o único republicano no jornal. Acho que nessa altura o chefe de redacção era o Pedro Correia Marques (foi mais tarde director, a partir de 1947). O jornal esteve para acabar, com a morte do anterior director, Fernando de Sousa, mas depois a União Nacional comprou as acções, assim como a Caixa Geral de Depósitos comprou as do Diário de Notícias. Ele conhecia o meu pai. Era um puro, um homem de carácter, mesmo sendo da “Situação”, nunca admitiu a censura.

(Conta como se organizava o jornal. Fala do piquete, que só saía depois de ver a última página já impressa (na tipografia do próprio jornal, como era de uso, embora, neste caso, noutro edifício e noutra rua do Bairro Alto), pelas 4 e meia da madrugada.

O dia, no matutino A Voz, começava de manhã, com os que faziam «o estrangeiro». O primeiro a entrar normalmente era o padre Dinis da Luz acerca de quem nos há-de contar, já quando a cronologia chegar ao 25 de Abril, uma história chocante. «Fazia uma página informativa do mundo inteiro. Notícias ligadas à Igreja católica. Era um tipo sagaz, muita vezes o dr. Norberto Lopes me pediu que eu tentasse levá-lo para o Diário de Lisboa!…» O jornal não possuía serviço de telex: «A France Presse e a Reuter mandavam lá um miúdo, de hora a hora, com as notícias. Recebíamos também assim a Lusitânia e a ANI».

(A entrada na profissão não exigiu sequer diploma da 4ª classe. Não obstante, o ambiente, a avaliar pelos dois exemplos do retrato que nos faz de A Voz, mais pareceria o de um campus universitário: «O Pedro Correia Marques falava latim. Falava mesmo, de brincadeira, com o padre Diniz da Luz. Aprendeu sem ir à escola, aproveitando o facto de ter nascido próximo do mosteiro de Singeverga. Tinha uma cultura espantosa aprendida com os frades. Mas como não tinha diploma nenhum, nem da 4ª classe, nunca pôde ser Director da Biblioteca Nacional e coisas assim. O Eugénio Navarro (pseudónimo) tinha a 4ª classe e resolveu licenciar-se em Letras. Fez aquilo tudo seguido. Era quem sabia mais sânscrito em Portugal».)

P — Como é que se aprendia a fazer jornalismo?

R … Era a tarimba. Actuávamos por ver actuar. E trabalhávamos. A minha passagem pelo jornalismo ficou marcada pela dedicação. Não fui ilustre, nada, era só dedicação.

P — Como era o seu dia-a-dia?

R — Tinha que fazer a ronda da manhã para o Diário de Lisboa, na Arcada. De tarde, pelas 3, entrava na Voz. Até às 9. Seguidas. Num contrato colectivo de trabalho que o SJ negociou, mais tarde, conseguiu-se que, se fossem seguidas, não podiam ser mais do que cinco horas.

P — Ainda dava para ir almoçar a casa?

R — Na altura sim, tinha o eléctrico. Morava nas Avenidas Novas, ao pé da Gulbenkian. O eléctrico parava mesmo ao pé da embaixada de Espanha. Ia até ao Terreiro do Paço. Era uma beleza. Dali, de tarde, ia para A Voz, que ficava em frente do República, na Rua do Mundo [hoje da Misericórdia]. Por cima da delegação, se não me engano, de O Comércio do Porto

P – Trabalhava nos dois sítios?

R— Fiquei a trabalhar lá e no Lisboa, durante muitos anos.

P — A Voz pagava-lhe mais do que o DL?

R — O ordenado fixo era um conto e duzentos.

P — Mais os 700 escudos do Lisboa, nos anos 40…

R — …já deu para casar.

P — Quando passavam a redactores?

R — Não havia prazo. Um dia, já não me lembro em que ano, houve uma tentativa de revolta com militares e que morreu à nascença. Foram julgados em tribunal militar. Deu brado. Foi um mês. Acompanhei aquilo do primeiro ao último dias. Página inteira, sem fotografias. No fim do trabalho – devia ter os meus trinta anos — fui promovido a redactor.

P — Como é que fazia a cobertura de um julgamento daqueles num jornal daqueles?

R — Muito difícil. Muito difícil. Mas eu procurei sempre ser o mais exacto possível. Era preciso uma habilidade muito grande. Tive sorte nos jornais onde trabalhei porque não me impunham nada. Tive sempre profissionais, que conversavam, mesmo sobre títulos.

P — Passou a fazer mais reportagem?

R — Não. Era uma das coisas que mais me magoava. Sentei-me à mesa e nunca mais me levantei dali.

P — Tornou-se um manga-de-alpaca. Chegou a usar [mangas de alpaca] como outros nesse tempo?

R — Não. Mas era um manga-de-alpaca. Quando chegava, já estava o trabalho feito, pelo Diário Popular e pelo Diário de Lisboa.

P …— Não percebo.

R — As notícias a acompanhar já estavam recortadas. Mas tínhamos o cuidado de não copiar. Líamos e depois fazíamos de novo. Aconteceu uma vez que se inaugurou em Lisboa um bairro que era só para os polícias da Pide. O sobrinho do Norberto Lopes, Vítor Direito, fez uma notícia com um sarcasmo terrível, que a censura não entendeu. Acabava a dizer que muitos dos ocupantes eram agentes da polícia. Não dizia que eram da Pide, mas dava a entender. Aquilo passou-me pelas mãos e eu reescrevi a notícia, dizendo que algumas casas estavam destinadas à polícia. No dia seguinte, ao fim da tarde, o Pedro Correia Marques chama-me ao gabinete, que era logo a seguir à redacção e diz-me, furioso: “Tenho que o despedir? O senhor coloca-me nesta situação?!”. Perguntei do que é que se tratava. “Então o senhor não me copiou a notícia do Diário de Lisboa?” Disse-lhe que não tinha copiado. Que estava lá o essencial, mas que tinha sido reescrita por mim.

Ele tinha acabado de chegar da União Nacional e tinha estado a falar directamente com o Marcelo Caetano. “Quem fez isso, despeça-o”, disse-lhe o Marcelo. «Mas ó Correia Marques, o senhor já leu o Diário da Manhã [matutino ligado ao regime]?«, perguntei-lhe eu. “Qual Diário da Manhã?! Hoje não tive tempo para coisa nenhuma.”  «Então leia, se faz favor.» Passei-lhe o Diário da Manhã. A notícia do Vítor Direito estava lá chapada. Ele olha para mim, aliviado, e diz: “Ah!, não se fala mais nisso.” Ele era muito meu amigo e estava a ver que tinha que me mandar embora. Assim, já podia responder [à exigência de Marcelo Caetano]: “Tem é que correr com os do Diário da Manhã. A gente [em A Voz] não trabalha assim…”

P — O que é que estava na vossa cabeça, naquele altura: «Sou jornalista, vivo num país que está sob um regime de ditadura, há censura»?

R — Em A Voz, julgo que não afectos à «Situação» só éramos eu e o César Afonso, que depois foi chefe de redacção. Já morreu. Não fazia política, só se preocupava com coisas literárias, era formado em Letras, foi professor da Casa Pia e colaborador na Rádio.

P — Vocês na altura tinham todos segundo emprego?

R — No jornalismo na altura, mesmo no Diário de Notícias e em O Século, havia pessoas que eram funcionários públicos, trabalhavam em grandes empresas. Eram pessoas muito consideradas em certas esferas. O redactor do DN que fez a reportagem do tal julgamento chegava ao tribunal e sentava-se. Depois, vinha um contínuo do Diário de Notícias trazer-lhe o papel, os óculos, o lápis. Era uma figura respeitada. E depois iam levando os linguados por ele escritos. Havia gente assim. Ao Norberto de Araújo (ia a nossa casa, quando eu era ainda miúdo, levava-me chocolates) adorei-o, depois, no jornalismo. Não era só dos melhores de Portugal, era dos melhores da Europa. Mas a tal questão que colocou não se punha em A Voz: tirando os dois nomes que referi, todos estavam de acordo com o regime.

P — O que é que levava, então, uma pessoa a ser jornalista? Além de ser filho de jornalista…

R — Francamente, a mim foi só isso. Mas onde ganhei o gosto pela profissão foi no Jornal do Comércio. Em grande parte, devido às relações de amizade e de camaradagem que estabeleci com um saudoso redactor daquele diário, de apelido Graça, cujo exemplo de vida, além do seu profissionalismo, me serviu de guia até hoje. Morreu cedo o Graça – mal chegara à meia-idade – devido aos espancamentos e outros tormentos a que a Pide o sujeitou. Mas viveu o tempo suficiente para conquistar a admiração dos colegas, sobretudo dos mais novos, pelo seu exemplo de coragem, generosidade, profissionalismo e disponibilidade para aconselhar, desfazer as dúvidas dos que se preocupavam com o destino de um país subjugado pela ditadura. Dessas fortes relações com o Graça nasceram os princípios que nortearam a minha vida profissional e privada: exemplo, responsabilidade, isenção e humildade.

P — No que me tem contado até aqui, vemos que há jornalistas importantes, quase tu-cá-tu-lá com a elite, mas ao mesmo tempo as viúvas dos jornalistas são obrigadas a ir pedir dinheiro à porta dos jornais, para sustentarem os filhos. Não é contraditório?

R — A maioria tinha uma vida difícil. Dou-lhe um exemplo: o presidente do Sindicato dos Jornalistas tinha assento na Câmara Corporativa. E durante quatro ou cinco meses por ano (se não lhe arranjassem lá uma comissão para ser o ano inteiro…), tinha uma avençazinha de uns cinco contos (o ordenado de redactor era um conto e oitocentos). Havia uma luta muito grande para se ter esse lugar. Ser dirigente do sindicato (e isso era só para os situacionistas, porque as listas tinham que ser aprovadas) dava algumas vantagens grandes — uso e porte de arma, presença aqui e ali. Os jornalistas gozavam de um grande reconhecimento, mas era preciso ter-se cuidado para não se ser comprado pelas grandes companhias.

P — Elas compravam?

R — Tentavam ter sempre lá alguém colocado. Havia muitos. Alguns eram boas pessoas. O Maurício de Oliveira, que foi director de A Capital, fundador e director da Revista da Marinha, era muito culto (e esse, então, muito generoso: não era aos cem, era aos quinhentos [escudos] que ele dava a quem precisava). Ele era alto funcionário da Companhia Colonial de Navegação.

P — O que é que interessava à CCN ter um alto funcionário num jornal? Para colocar notícias?

R — Havia, por exemplo, um discurso que interessava à CCN que fosse conhecido. A categoria que tinha entre os seus pares fazia com que bastasse ser ele a mandá-lo aos seus amigos, que tinham estima por ele, para que fosse publicado nos diferentes jornais, na íntegra ou muito aproveitado.

P — Os jornalistas portugueses nessa altura exerciam a profissão em mais do que um lugar: em dois ou mais jornais, e como professores, funcionários públicos, ou noutras empresas. Como é que o tempo chegava?

R — Os jornais não tinham as páginas que têm hoje; depois havia o noticiário do estrangeiro e das agências portuguesas, que nos inundavam: a Lusitânia, com tudo das nossas colónias; a ANI, coisas ligadas ao mundo e de cá de dentro. A dificuldade era seleccionar. O jornal estava sempre cheio.

P — Ficou nos dois jornais até quando?

R — Até próximo de 1960. Nessa altura, o dr. Mário Neves, que além de redactor principal do DL era também comissário da FIL, foi fazer uma Feira Internacional a Angola ou Moçambique e ficou lá cinco meses. O Norberto Lopes falou ao meu pai: “Veja lá se o seu rapaz está interessado em fazer aqui umas coisas, o dr. Mário Neves meteu uma licença sem vencimento”. E eu lá arranjei tempo, porque eu só trabalhava, mais nada. Além de A Voz, e da obrigação de fazer a informação da Arcada, para o “Lisboa”, passei a fazer outros trabalhos no Diário de Lisboa. Para isso davam-me um ordenado que era mais do que o de repórter e menos do que o de redactor. Fazia aquelas coisas que ninguém queria fazer. Ia de manhã ao ministério e almoçava no DL. Normalmente com o Norberto Lopes — uma senhora viúva de um chefe da tipografia mandava-nos uma criada com a comida que a gente pedia e que nos era servida na própria secretária de trabalho. No meu caso com uma meia-garrafa de Colares, tinto, o que levou o Joaquim Letria a pôr-me a alcunha de “Garrafinhas”…

P – Quer dizer que almoçava sempre com o chefe de redacção?

R — Mesmo depois de ser director, nunca deixou de estar na redacção do jornal. Nunca ocupou, nem por um dia, o gabinete do Director, que era a melhor sala do edifício. O Norberto Lopes considerou-me sempre uma pessoa muito séria. Ele sabia que se me pedisse para eu fazer qualquer coisa a tempo e horas estava feita. Nunca fui brilhante. De resto, eu considerei-me sempre um profissional de imprensa. Nunca me chamei jornalista. Para mim, jornalistas eram o Norberto Lopes, era o Mário Neves, era um Carlos Ferrão.

P — Eram porquê?

R — Porque faziam opinião. Eu não fiz. Fazia reportagem, uma croniqueta ou outra, sobretudo no estrangeiro. E depois, por causa da segurança que eu dava de não me vender, fiz turismo no DL, em A Voz e no Diário de Notícias. Depois de mim, ninguém mais fez turismo. Todas as semanas recebiam-se convites para instalar-se aqui, instalar-se acolá, e eles sabiam que eu podia, quando era caso disso, porque não ia fazer frete a ninguém. Essa confiança levou muitos anos a consolidar. «Se você trabalhar bem, daqui a cinco meses ninguém o substitui porque faz o que os outros não querem fazer», dizia-me ele. E assim aconteceu. Fui nomeado redactor.

P —… E abandonou A Voz?

R —  Não, nunca.

P — Abandonou foi a Arcada?

R — Também não abandonei a Arcada. Ficou incluída nas minhas obrigações diárias.

P — Não andava extenuado?

R — Andava um bocadinho. Fui arruinando a saúde. Ia tomando aspirinas, era às duas com o café, dei cabo do coração. Chegava a comer dextrina – hoje não sei se está proibida. Trazia-a no bolso. Estabeleci com o meu querido e saudoso amigo Armando de Almeida, na Arcada (ele dava informações para o Diário Popular) a seguinte combinação: qualquer coisa oficial que fosse notícia, nós dávamos um ao outro; se fosse uma caixa ou um serviço especial do jornal, o outro não tocava no assunto. Cumprimos até ao fim.

P — Como é que fazia quando era mandado em reportagem?

R — Fazia pouco reportagem porque já era redactor. Mas às vezes, sim, por exemplo, um congresso. Instalava-me e fazia também para o outro [jornal].

P — Como é que se escrevem dois textos sobre o mesmo assunto para dois jornais diferentes? Como fazia a selecção de dados, para não serem iguais?

R — Éramos muito exactos, não éramos verdadeiramente jornalistas. Fazíamos a cronologia do acontecimento: um disse isto, outro disse aquilo, aquele falou sobre qualquer coisa. E não havia assinaturas. A entrada da notícia era diferente e mexia-se no meio, também.

P — Dava mais ênfase, por exemplo, a uma pessoa do regime em A Voz, e no Lisboa menos?

R —  Não, isso não. O que me preocupava era o tamanho: uma notícia para o Lisboa era um linguado e meio; e para A Voz eram quatro ou seis. E também é preciso não esquecer que os jornais da manhã vivem mais da nossa imaginação. Tínhamos a tarde para o escrever. Os da tarde não, alguma coisa acontecida às 3 da tarde já só se fosse muito importante. Acumulei A Voz e o Diário de Lisboa entre 1948 e 1964.

 (Chega a colaborar noutros jornais. Entretanto, porém, dá-se a «cisão» jornalística que leva um grupo capitaneado por Mário Neves e Norberto Lopes a abandonar o «Lisboa», rumo a A Capital. José Estêvão não sabe bem que caminho tomar: deu-se sempre bem com a família Ruella Ramos, proprietária, mas também é amigo dos «dissidentes». Leva «três ou quatro meses a decidir». Acaba por aceitar o convite para assumir funções de subchefe em A Capital. Durante algum tempo acumula com A Voz, mas em dada altura entra em regime de exclusividade. Fica «três ou quatro anos» no vespertino. Integra, entretanto os corpos gerentes do Sindicato, como tesoureiro. Participa nas negociações do acordo colectivo de trabalho com o Grémio da Imprensa Diária, no qual a classe consegue a eliminação da figura do «repórter-informador» e obtém a fixação do período de férias e os direitos ao 13º mês e às diuturnidades. Chega a presidente da Assembleia-Geral (AG), num processo que o levara para o Diário de Notícias.)

 P — No 25 de Abril estava onde?

R – Estava no Diário de Notícias. Os meus colegas que me tinham convencido a ser sindicalista é que me levaram para lá. Era de tradição o presidente da direcção passar a presidente da AG, mas como o Pereira da Costa não quis, fui eu… Nunca me senti à vontade com a política. Tinha as minhas convicções, os meus anseios – ansiava por um 25 de Abril, que já veio tarde para mim.

P – Tinha 51 anos.

R – Já não era muito jovem. E depois tive aquele azar do caso dos 30 (despedidos pela direcção Luís de Barros/Saramago). Quando entrei, queria ser só redactor. Estes tinham sete contos de ordenado e recebiam horas extraordinárias. Era o dobro. A gente não mexia uma palha: a Alda Mafra tratava de tudo. Um quarto de hora a mais era logo considerado hora extraordinária. As minhas contas indicavam que eu iria ganhar uns 20 contos por mês (muito mais do que um director-geral). ‘Agora vou ganhar a minha vida, ver se vivo um bocadinho”. Tenho, porém, a infelicidade de o chefe-adjunto da Redacção do Diário de Notícias da altura ter saído para ir assumir o cargo de subdirector de A Capital. Ficou em aberto o lugar de chefe de redacção-adjunto. O DN tinha três subchefes: o Sebastião Cardoso, o José Ilharco e o Fernando Pires. O João Coito nomeou-me a mim adjunto. Disse-lhe que não podia aceitar, dado que havia três subchefes com direito à sucessão. “Não me faça isso, porque se não for assim, não posso tê-lo cá”, respondeu ele. Os outros atiraram-se ao ar, ficaram zangados com ele (o Sebastião Cardoso não) mas eu também fiquei chateadíssimo, porque fiquei com um ordenado fixo – sem direito a horas extraordinárias – e com mais obrigações. Naquele tempo ser subchefe já era mau, quanto mais chefe de redacção adjunto! O Sebastião Cardoso morreu pouco depois; o José Ilharco afastou-se; o Fernando Pires fez uma carreira brilhante, terminando em secretário-geral do DN, um cargo que no nosso tempo era de um grande importância pois tratava-se da pessoa que trabalhava directamente com o Director do jornal. O João Coito saia cedo: combinava a primeira página, fazia um croquis e o adjunto é que ficava todas as noite, até ao fecho da edição.

P – E chega o 25 de Abril…

R – Todos pensavam que eu era comunista. A maioria da redacção era da “Situação. Eu conversava à vontade na tipografia e em todo o jornal, sobretudo acerca da guerra colonial e convenceram-se de que eu comunista. Quando chegaram os socialistas, mostrei-lhes tudo e disse-lhes o que precisavam de saber. Os comunistas não gostaram. Depois veio o Saramago, com o seu staff (os outros também haviam levado) e eu fiquei subchefe de coisas só do dia-a-dia, como já acontecera com os socialistas, embora quase todos fossem meus amigos. Até que um dia de Agosto de 1975, no meio do trabalho, veio o José Sampaio ter comigo e disse-me: “Nós sabemos que tu não vais assinar este manifesto, mas não queríamos entregá-lo sem que tu o lesses”. Eu li e arruinei a minha vida.

P – Porquê?

R – Porque tudo o que estava lá era verdade. O jornal evidentemente estava ao serviço do PC, do gonçalvismo. Como antes teria estado antes ao serviço do PS. “Eu tenho que assinar isto. Se não o fizer, nunca mais sou capaz de olhar para a minha família e para os meus amigos”, disse. Peguei na caneta e assinei. «Assinaste a tua sentença de morte», disse-me o José Sampaio (nunca mais o vi).

P – Foi um processo muito doloroso?

R – Foi. Bom, alguns portaram-se muito mal. Fiquei envergonhado da maneira como se puseram a pedir desculpa. O número de despedidos passou de 30 a 24. Havia um casal que eu próprio me esforcei bastante para desligar do manifesto, porque não havia razão nenhuma, eles não conheciam nada, era só por quixotismo. Saímos e nem o dinheiro dos dias do mês que tínhamos trabalhado nos pagaram. Corridos para a rua. Nessa altura tinha a meu cargo a minha mulher, a minha filha, que estava a estudar Economia e a minha sogra. De repente fiquei sem capacidade de gerir a família.

P — Mas pouco depois já estavam a fundar um jornal diário.

R — Sim, surgiu, no ano seguinte, a possibilidade de fazer O Dia. Com gente muito interessante. O director era o Vitorino Nemésio. Adoeceu logo. Eu e o João Coito fomos visitá-lo várias vezes. Ele julgava que sofria de uma articulação da perna mas tinha um cancro. Substituiu-o o David Mourão Ferreira, mas também viveu pouco tempo. Deixei o jornal um ano ou dois passados, depois de ter sido subchefe destes dois directores e de António Alçada Baptista. O Dia tinha-se esquecido de «servir o País em espírito de verdade», como prometera. Abandonei a cooperativa e, com o João Salvado, que também bateu com a porta (assim como o Alçada Baptista), fui um dos fundadores do semanário Dez de Junho, que foi à falência após um ano de publicação. Fiquei sem nada. Entretanto os gonçalvistas saíram do DN, foram para lá um militar, que não ia fazer política, mas apenas gerir, e o Mário Mesquita, que é para mim um verdadeiro jornalista, com uma escrita maravilhosa. A maioria dos 24 recebeu uma indemnização, mas eu preferi manter o vínculo. A promessa do DN era: se precisassem de mim e me chamassem eu tinha 30 dias para responder. Se reentrasse, era como se nunca tivesse saído; se não quisesse reentrar, o vínculo quebrava-se, não sei se com uma pequena indemnização. Passado meia dúzia de meses pedi para regressar. O Mário Mesquita disse-me que só tinham um lugar vago de subchefe de redacção. «Nem era para isso que eu vinha. Vinha para redactor», respondi-lhe, e reentrei [em 1980]. A redacção integrou gente que tinha vindo quase toda de Angola, a quem eu conhecia, porque tinha estado lá em serviço do sindicato (lá eram sindicalizados como empregados do comércio).

(O Diário de Notícias é o seu último emprego mas não única ocupação, antes da reforma. Conta: «O Mário Mesquita tinha inventado uma coisa engraçada – Política à Mesa, ou coisa assim – em que se falava daquilo de que os políticos gostavam. Alguém perguntou: “Mas vocês lá só bebem água?”. E ele um dia, numa daquelas reuniões diárias do jornal, disse que precisava de alguém que fizesse um comentário de vinho. “Faz o José Estêvão”, disse o Fernando Pires. Não tive outro remédio. Comecei a dizer que os copos tinham que ser bem limpos, que as garrafas não deviam ser agitadas. Comecei a gostar daquilo. Ganhei-lhe o gosto».

Dinis de Abreu (na altura director-adjunto) imagina fazer também um suplemento [DN-Vinhos]: «Não me largou. Fi-lo durante cinco anos. Quase sozinho».

Reforma-se aos 64 anos, em 1987. O DN dá-lhe como prémio — iniciativa que alarga a todos os que escolhiam essa via, na altura —  um pequeno reforço da reforma, fixo, até morrer.

Mantém, contudo, o suplemento que lhe valerá, em 1992, o “Troféu DN”, o mais alto galardão do jornal. Escreve, entretanto, dois livros – Vinhos de Portugal e Quintas do Vinho Verde – e diz que sim a vários convites que vai recebendo de outras publicações — Revista de Vinhos, Casa Cláudia – para escrever sobre vinhos.

Em 1993, problemas cardíacos levam-no a parar em definitivo, a conselho médico. Tem 70 anos. Uma nova e muito diferente etapa se inicia na sua vida. «Uma médica excepcional, que foi directora clínica do Hospital de S. Francisco Xavier, tomou conta de mim, estabilizou-me, mas eu, por um lado, e a minha mulher, pelo outro, temos aí as gavetas cheias de medicamentos. Logo de manhãzinha é o relógio a tocar para tomarmos comprimidos. Estes 13 anos têm sido muito dolorosos», diz, aproveitando para deixar uma mensagem aos que agora se iniciam na profissão: «Assegurem um fim cómodo. É a coisa mais difícil hoje. Não há dinheiro que chegue».)

 P — Como sabe, hoje o que temos mais certo é não termos nada certo. O senhor ainda apanhou a reforma por inteiro. Mas sente que ela não chega para viver com dignidade?

R — É muito difícil. Tivemos sempre uma empregada doméstica que auxiliava diariamente, mas hoje ela tem a nossa idade, vem dois dias por semana. É tudo muito difícil. E além disso, pago os medicamentos por inteiro.

P — Mas há a farmácia da Casa da Imprensa.

R — E como é que eu vou à Casa da Imprensa? Para meter o carro lá no silo dos automóveis vejo-me atrapalhado. É terrível. E uma pessoa perde a vontade. Vai-se ao médico, pronto, são 10 continhos. Depois passa-se à farmácia. E os remédios são muitos caros. E muitas vezes receitam-nos medicamentos que passados 4 ou 5 dias a gente vê que não dá resultado. Fala-se com o médico e ele: “Ponha de parte”…

P — Enviou uma mensagem aos mais novos, mas eu pergunto-lhe: como é que eles hão-de acautelar esse futuro?

R — Devem tentar. Por exemplo, fazendo uma Casa do Jornalista.

P — Como a Casa do Artista?

R — Nós chegámos a ter um casal de proprietários de Alcobaça que nos ofereceu o terreno, uma quinta, e até, julgo, a casa. Não aproveitámos. É preciso que alguém se empenhe. Sabe quem é que fez aquele bairro de jornalistas [em Alfragide]? José Estêvão e César Afonso. O José Estêvão não foi para lá. O César Afonso foi, mas zangou-se com a mulher e perdeu a casa…Éramos quatro que andávamos a tentar ter a nossa casinha aqui próximo de Lisboa. Não se fez na Parede, porque o senhor Botelho Moniz anulou-nos a ideia, dizendo que ia prejudicar a antena do RCP. Não prejudicava nada. Tentámos depois Oeiras, mas o Presidente da Câmara não quis. Uma pessoa minha amiga — que eu tinha conhecido na Arcada,­ era o director-geral da Urbanização, pai daquele rapaz que morreu no desastre com Sá Carneiro, era Ministro da Defesa [Adelino Amaro da Costa] —, resolveu o problema arranjando-nos um terreno mas para uma dúzia, não para quatro. Andámos quase a pedir a camaradas que se inscrevessem. Na altura, cinco contos de cada um deu para fazer as ruas, esgotos, electrificar, os passeios. Um arquitecto fez a planta e fizeram-se as casas. Nenhum deles agradeceu ao José Estêvão. Os jornalistas foram sempre assim. Mas depois chegam ao final da vida e estão muito mal. Conheci alguns em situação muito pior do que a minha.  

  • Excerto de uma entrevista (ainda inédita) feita em 18.10.2006, com vista ao Perfil Sociológico do Jornalista Português, elaborado por uma equipa de investigação do CIES/ISCTE coordenada pelo professor José Rebelo

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