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Intervenção de Armando Pereira da Silva

Armando Pereira da Silva, Maria José Silva, José Luiz Fernandes e Afonso Rato“A Seara Resgatada”
de Miguel Serrano

A organização cronológica desta bela recolha dos trabalhos que Miguel Serrano assinou no jornal “A Planície”, entre 1952 e 1962, quase nos convida a ler estes textos como uma espécie de diário de campanha ligado a uma das aventuras mais surpreendentes e improváveis da imprensa portuguesa em plena ditadura.
Sediado e feito no Alentejo profundo, em Moura, o jornal “A Planície”, de que o mourense Miguel Serrano seria um dos principais construtores, foi uma das poucas publicações ditas de província que, nesse tempo de chumbo, saltou as fronteiras do localismo para ganhar prestígio e influência em todo o país. E não foi por acaso. Estas coisas nunca ou raramente acontecem por acaso.

Miguel Serrano tinha trinta anos quando fundou A Planície. Sete anos antes, em 1945, quando terminou a 2ª Guerra Mundial e ventos de esperança libertadora percorreram o nosso País, ele era pouco mais que um adolescente. Um homem novo, em todos os sentidos do termo, já fortemente marcado pelas contradições do seu tempo e por preocupações culturais e influenciado pelos grandes autores que, entre dois séculos, apontaram novos caminhos para a Humanidade. Estava-se, pois, numa época de transição. Da guerra e da ditadura para algo que deveria ser o seu contrário, mas não se sabia ainda como nem quando.
Os textos desta campanha, ou deste diário, indicam-nos, ou pelo menos sugerem-nos, um percurso de vida já inevitável: Serrano começa por interrogar os seus autores de cabeceira, entre os quais Antero de Quental; depois interroga-se a si mesmo e começa a interrogar os outros, também em termos de responsabilidade individual; não tarda a lançar um olhar de surpresa, tantas vezes um olhar espantado de criança, sobre o mundo e, mais de perto, sobre a sociedade local e as suas circunstâncias. O Alentejo da época aparece então na realidade da sua paisagem humana, física, social: a terra, a vila, as feiras, as pessoas. Os ricos, na sua opulência quantas vezes sem sentido. Mas sobretudo o povo. O povo que chora e ri das suas próprias desgraças, o povo que cria, que constrói, que inventa e usa o varapau e a palavra, a ironia e a denúncia com mestria e sentido de oportunidade. Nestes aspectos, as crónicas, os poemas, os diálogos, as tentativas para-teatrais, os atrevimentos experimentalistas tão próprios da época reunidos em “Seara Resgatada” constituem uma espécie de programa de vida.
Já se adivinha nestes textos a tensão entre o criador e a censura, a revolta progressiva do espectador nunca neutral perante a injustiça a fome e o sofrimento impostos a crianças e velhos, os mais desprotegidos dos pobres escondidos no jardim gradeado. O confronto é mais nítido nos últimos textos, escritos já na cidade grande quando o autor iniciava, longe de Moura, a sua vida de jornalista profissional na imprensa diária. Nota-se então, nas suas crónicas, a mudança progressiva para um estilo mais frugal, digamos assim, já sujeito às regras estilísticas da chamada grande imprensa; já marcado pela experiência de uma censura com escritórios no outro lado da rua e exercida com objectivos política, social e culturalmente bem definidos pelo poder; pela descoberta de um levantamento político, laboral e estudantil que não mais seria parado; pelo choque de uma guerra estúpida que iria, necessariamente, fraccionar os Portugueses e a consciência do País.
Esta “Seara Resgatada”, mais as centenas de notícias e reportagens que terá escrito e não assinado para A Planície e outros pequenos jornais do Alentejo, são o diploma, a carta de recomendação, o curso de jornalismo que não havia, mas se cumpria nervosamente na tarimba de redacções tecnicamente pobres, insuficientes, mas humana e culturalmente enriquecedoras e socialmente determinantes. Julgo que está por fazer o estudo histórico e sociológico dessa realidade e, sobretudo, das ramificações de vária ordem próprias de cada experiência. A Planície, por exemplo, teve consequências de índole cultural e política em todo o País, nomeadamente a Norte, o que é muito interessante, sobretudo através do movimento Convívio que inspirou. Tal como o Miguel fizera, alguns anos antes, também eu viria a entrar na profissão armado com a rica experiência da imprensa regional, a qual abriu, desde muito cedo, a porta de suplementos literários dos jornais ditos nacionais. Era essa a escola de jornalismo que tínhamos. E bem rica era ela, em muitos aspectos. Não nos daria algumas bases reconhecidamente necessárias de abordagem científica do nosso trabalho, mas dava-nos outras, de ordem cultural e proximidade dos problemas reais das pessoas, que nos seriam preciosas para nos movermos no mundo novo e muito complexo a que nos atrevíamos.
Uma nota mais pessoal, em conclusão: eu e o Miguel Serrano conhecemo-nos no início dos anos sessenta. Foi rápida e até ao fim a amizade que nos uniu: é que o Miguel, homem apaixonado pela vida e com uma personalidade explosiva na dor e na alegria, na angústia e no entusiasmo da descoberta de novas conquistas da Humanidade, de novos conhecimentos sobre a vida e a sua origem, não fazia as coisas por menos. Trabalhámos juntos a partir de finais dessa década. Isso permite-me dizer, com conhecimento de causa, que a muito ampla visão que Serrano tinha da nossa profissão, a dimensão humana e cultural de que a não dispensava, marcou várias gerações de profissionais e leitores. Ele foi, com mais alguns jornalistas do seu tempo, um precursor laborioso e companheiro de primeira fila das gerações seguintes que viriam a conquistar a nossa dignidade e a saborear o gosto da liberdade que, ainda a tempo, souberam merecer.