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12 dez 2021

Sessão na Casa da Imprensa: a comunicação define a ação e a vida de Orlando Gonçalves

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  • Sessão na Casa da Imprensa: a comunicação define a ação e a vida de Orlando Gonçalves

A comunicação traduz o sentido da acção que construiu a vida de Orlando Gonçalves, quer no plano da cidadania política quer no de escritor e de jornalista. A Casa de Imprensa acolheu no seu Salão Nobre, em 11 de Dezembro de 2021, a homenagem a Orlando Gonçalves, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento.

O retrato de Orlando Gonçalves foi traçado por Ana Alcântara, Ana Maria Pessoa e Orlando César, a quem coube a apresentação do homem e autor, numa sessão que foi moderada por Filipa Subtil. Mas também emergiram testemunhos da audiência para memória futura sobre o homem, nascido no Rio Seco, na freguesia lisboeta da Ajuda, sobre o escritor e sobre o jornalista que dirigiu o “Notícias da Amadora” entre 1963 e 1994. Orlando Gonçalves nasceu em 1921 e morreu em 1994, em Lisboa.

Filipa Subtil, professora na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS - Instituto Politécnico de Lisboa) e investigadora, aludiu ao significado da homenagem, organizada conjuntamente pela Casa da Imprensa e por Orlando César, e que contou com o apoio do Sindicato dos Jornalistas.   

Paisagem social

O primeiro retrato foi traçado por Ana Alcântara, professora na Escola Superior de Educação (ESE – Instituto Politécnico de Setúbal) e investigadora. Não traçou «o retrato do homem, do antifascista, do escritor ou do jornalista», deu antes corpo ao «enquadramento social e urbano dos primeiros anos de vida da criança» no Rio Seco, à «paisagem social que viu nascer o “Bichinho da Seda”», personagem de Enredos da Memória, livro de Orlando Gonçalves editado em 1993.

A historiadora Ana Alcântara estabeleceu, como o disse, «algumas pontes entre a história coletiva e a memória pessoal», reproduzida no livro de Orlando Gonçalves, que em 1993 conquistou o Prémio Literário da Amadora. Cruzou «o retrato operário, urbano e associativo da Ajuda das primeiras décadas de 1900 com as memórias dos territórios físicos e afetivos da meninice de Orlando Gonçalves».

O Rio Seco dessa época era um «bairro da periferia ocidental de uma capital que era, à época, um espaço urbano descontínuo, pontilhado de vazios e áreas rurais», disse Ana Alcântara. Citou também Orlando Gonçalves que, em Enredos da Memória, escreveu que era um «bairro enjeitado da cidade».

Ana Alcântara contiguou a realidade social com a narrativa, as memórias e testemunhos de Orlando Gonçalves. De acordo com o Censos de 1920, «60 por cento dos habitantes da freguesia da Ajuda eram novos lisboetas (pessoas nascidas fora do concelho de Lisboa)». A freguesia evidenciava «uma realidade social múltipla e complexa» constituída por «artesãos e artesãs instruídos», por «operários especializados», assim como por «trabalhadores indiferenciados que, conforme as estações, os ciclos de produção ou as necessidades do mercado, salariavam temporariamente a sua força de trabalho».

Também era um «território heterogéneo nas formas de habitar», com «aglomerações habitacionais das “classes laboriosas” com diferentes formas e tipologias que potenciaram um ambiente social diverso». Havia «casas que fazem lembrar aldeias rurais, mas também nos “pátios”, vilas e outros alojamentos mais precários – como as barracas que existiam junto ao muro do cemitério ou nos subterrâneos, furnas e covas que alojavam aqueles e aquelas que trabalhavam nos fornos de cal».

A falta de apoios sociais por parte do Estado e/ou dos empregadores, como disse Ana Alcântara, «levaram à emergência de um movimento operário de caráter associativista» que, na zona ocidental de Lisboa, se caracterizava por «uma grande proliferação de associações de cariz mutualista ou de beneficência, como a Associação de Socorros Mútuos Aliança Operária». Mas também existiam «agremiações de caráter laboral, as “associações de classe”», de que é exemplo a Associação de Classe dos Operários Cordoeiros e Linheiros.

Segundo Ana Alcântara, as Mútuas, Beneficências, Cooperativas, Sociedades e Associações de Instrução, Recreio e Desporto desempenharam um papel importante para as comunidades. Constituíam «polos de agregação social» numa freguesia muito marcada por contiguidades e interdependências», mas também «por algum isolamento e distanciamento face a outros espaços urbanos, mesmo que relativamente próximos».

Retrato do escritor

Orlando Gonçalves tinha 27 anos quando publicou o seu primeiro romance, Tormenta, que foi apreendido 15 dias depois de ter sido posto à venda. Foi a recensão e crítica elogiosa publicada no jornal “A República” que alertou os Serviços de Censura. Comunicada a proibição do livro à PIDE (Polícia Internacional de Vigilância do Estado), esta procedeu à apreensão do livro. Orlando Gonçalves tinha cadastro na polícia política desde a sua prisão em 1943 e 1944 no Aljube e Caxias, acusado de pertencer ao Socorro Vermelho Internacional.

O retrato do escritor, uma sua faceta de acção através da escrita, iniciada anos antes com a produção de peças de teatro no Rio Seco Sporting Club, foi traçado por Ana Maria Pessoa, professora na Escola Superior de Educação (ESE – Instituto Politécnico de Setúbal) e investigadora. Orlando Gonçalves publicou cinco livros entre 1948 e 1957 e outros três entre 1974 e 1993. O «interregno de 17 anos na sua produção literária coincide com o seu maior ativismo político contra a ditadura, quer na ação política direta quer no jornalismo de “resistência”».

Ana Maria Pessoa salientou que o seu papel enquanto escritor foi o de um «intelectual militante», conhecedor do poder da literatura, onde transparecem as origens e as circunstâncias da sua vivência. «O bairro popular deixa profundas marcas no escritor».

Como disse, Orlando Gonçalves nunca foi «neutral, [o que era] reforçado nas palavras iniciais de cada livro». Aborda no livro inaugural temas como a guerra, em que se movem os interesses das elites e não dos povos. Mas também os que obrigam que empregados dêem tudo que podem e não podem, num tempo em que a repressão fez com que perdessem os sindicatos. Acresce o panorama de desemprego, apesar de subsistir ainda a convicção de que algum dia tudo se modifique.

Os seus livros tornam manifesto o comprometimento do escritor e a sua responsabilidade social. Além disso, reflecte sobre a condição humana, enquanto testemunha de factos e acontecimentos. Ana Maria Pessoa disse que Orlando Gonçalves interveio com «as armas que domina, neste caso, a escrita» e que nunca se remeteu ao silêncio, à conivência. Pelo contrário, «conjugou a militância política com a participação de escritor comprometido com o futuro e uma nova sociedade».

Retrato do jornalista

A centralidade da comunicação ao longo da vida de Orlando Gonçalves culminou com a sua actividade profissional de jornalista, exercida durante 31 anos, desde 1963 até à sua morte. O retrato foi traçado pelo jornalista e investigador Orlando César, filho de Orlando Gonçalves.  

Identificou três ciclos na vida de Orlando Gonçalves. Designou o primeiro deles como ciclo do Rio Seco, desde o seu nascimento em 1921 até ao final da década de 30, o qual se caracterizou pela vivência e experiências adquiridas nos meios operários e associativos da freguesia da Ajuda, segundo afirmou Orlando César.

O segundo é nomeado como ciclo das tertúlias, no período das décadas de 40 e 50, o qual se distingue pelo franquear das fronteiras da freguesia para participar nas tertúlias que ocorriam na Pastelaria Veneza e nos cafés Chiado e Portugal, no coração da capital. Traduz-se na sua inserção entre os cultores do neo-realismo e entre operários e militantes políticos. Daí nascem as suas facetas de escritor, editor e comunista. O terceiro ciclo é o do jornalismo, no período das décadas de 60 a 90, que se consubstancia, em tempo de ditadura, numa acção de resistência pela palavra. 

Embora tivesse iniciado a sua colaboração na rádio, jornais e revista na década de 50, só em 1963, quando assume a propriedade, edição e direcção do “Notícias da Amadora”, é que começa verdadeiramente o seu percurso de vida no jornalismo. Orlando César disse que o jornal evoluiu do território local, no então concelho de Oeiras, para os municípios limítrofes, assim como se tornaram mais diversas as abordagens regionais e novos temas passaram a ser produzidos, designadamente no domínio das artes e letras e do internacional.

O “Notícias da Amadora” assumiu desde o início um projecto editorial que visava desocultar factos e acontecimentos. Um papel conscientemente assumido de afrontamento da ditadura, o que tornou o jornal um alvo preferencial da censura, como o prova o acervo de provas censuradas.

A dinâmica de oposição gerada após a campanha eleitoral para as eleições legislativas de 1969, a colaboração de jornalistas de outros meios de comunicação social, o envolvimento de jovens que afluíram ao jornal e aí iniciaram o seu percurso no jornalismo e a participação de fontes de informação e leitores activos catapultaram o “Notícias da Amadora” para o plano nacional. Por acção de Orlando Gonçalves foi criada oficina tipográfica própria, que tornou possível o jornal ter distribuição e venda nacional e assinantes em todo o país e no estrangeiro.

O “Notícias da Amadora” assumiu-se sempre como um projecto político com uma causa, disse Orlando César. Pela sua redacção passaram, entre 1969 e 1974, mais de três dezenas de jornalistas, parte dos quais trabalhavam na imprensa diária de Lisboa. Mas, nesse período, quase mil autores assinaram peças no jornal. O jornal tinha como objectivo apresentar a realidade concreta, que se traduziu em inscrever uma agenda própria, com novos temas e novos protagonistas, aqueles a quem usualmente era negada a voz editada.

Orlando Gonçalves assumiu a direcção do “Notícias da Amadora” em 1963, mas o seu nome nunca foi autorizado, nessa qualidade, a constar na ficha do jornal pelos Serviços de Censura e pela PIDE. Apesar de ser com ele que tratavam de todos os assuntos respeitantes ao jornal. A ocultação despótica da realidade era uma marca da ditadura. O incómodo que o “Notícias da Amadora” provocou ao salazarismo foi expresso por Marcelo Caetano no livro que escreveu no Brasil, já depois de deposto pelo 25 de Abril, ao citar o jornal pelo seu combate ao regime.

Outros testemunhos

Outros testemunhos foram prestados pela audiência quer referindo-se à pessoa de Orlando Gonçalves quer ao “Notícias da Amadora”. O jornalista João Paulo Guerra, que era em 1974 chefe de redacção do “Notícias da Amadora”, recordou o assalto pela PIDE às oficinas gráficas do jornal, na Amadora.

Tal facto ocorreu em 18 de Abril de 1974, quando a PIDE apreendeu materiais impressos e até composição em chumbo. Nesse dia, pela segunda vez, Orlando Gonçalves foi encarcerado em Caxias. João Paulo Guerra narrou o acontecimento e como conseguiu iludir a polícia e sair da tipografia quando faziam entrar uma camioneta para carregar o material apreendido.

O investigador José Luís Garcia e os jornalistas Avelino Rodrigues e António Borga destacaram a importância do “Notícias da Amadora” entre as forças que se opunham e combatiam a ditadura. António Borga, que trabalhava então na secção portuguesa da BBC, aludiu ao contributo do jornal, enquanto fonte de informação, para a produção noticiosa que difundiam aos portugueses, emigrantes e exilados, que viviam no Reino Unido.

Eduarda Murteira e o deputado António Filipe pronunciaram-se sobre a pessoa de Orlando Gonçalves. A primeira conheceu-o quando era então uma jovem estudante e o segundo só depois do 25 de Abril. António Filipe partilhou com Orlando Gonçalves a bancada da CDU na Assembleia Municipal da Amadora e pronunciou-se sobre o seu carácter e a sua frontalidade no debate político.

 

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